Sol na capital paranaense, até um pouco quente para os padrões da mais alta capital do Brasil. Um grupo de interessados em áudio - além dos que vos escrevem o também engenheiro, Rosalfonso Bortoni e o promotor de eventos Eduardo Siqueira Santos - realizou uma tarefa muito agraciável.
Ver, ouvir e testar a maior obra de arte acústica em concreto no Brasil: UMA CORNETA.

José Carlos Falcão e Homero Sette Silva

Curitiba - 30 de Novembro de 1997

O GRAVE PERFEITO

A obra, de autoria do audiófilo Mauricio Deconto, a nada mais nada menos que uma corneta de dimensões gigantes (veja quadro com características técnicas), destinada a reproduzir, com excelente linearidade e com níveis mínimos de distorção, a faixa inferior do espectro de áudio frequências - de 20 Hz até 180 Hz. Quem já saiu em busca do "grave perfeito" sabe das dificuldades a serem vencidas, o que lembra o tal do "cobertor curto" pois quando cobrimos adequadamente um dos lados da questão o outro fica descoberto. Objetivos que se deseja alcançar:

· Reprodução linear ato limite da faixa audível, situado entre 16 Hz e 20 Hz:

· Capacidade de suportar elevadas potências. mantendo o deslocamento do cone do alto-falante dentro dos limites admissíveis.

· Acoplamento adequado entre a alta impedância acústica do falante e a baixa impedância característica do ar.

· Manter dentro de limites admissíveis a distorção, normalmente elevada na faixa de baixas frequências, onde o deslocamento do cone costuma ser grande.

Quando se é levado a optar por uma corneta, depois de efetuados os cálculos, o projetista depara-se com dimensões excessivas (devido aos elevados comprimentos de onda das frequências em jogo), dificilmente aceitáveis na maioria das situações normais. Esta situação geralmente leva a um compromisso entre o ideal e o realizável, o teórico e o praticamente admissível. Para isso existem as cornetas com eixo dobrado - para diminuir a profundidade - e comprimento muito inferior ao necessário para que a função de casador de impedância ocorra adequadamente. Isso sem falar nas bocas de pequenas dimensões (cerca de meio metro quadrado de área). A consequência disto tudo é que, na maioria das caixas comerciais tipo corneta o resultado obtido é pouco melhor (ou até inferior) que o conseguida com caixas bandpass ou até mesmo de radiação direta, que são mais fáceis de construir e, portanto, mais baratas. As exceções ficam por conta dos sistemas em que cada corneta, embora de pequenas dimensões, recupera pane do desempenho com o empilhamento, ou seja, a associação de várias delas, o leva a uma área de boca suficientemente grande para a reprodução de graves. Por outro lado, a construção de uma corneta com as dimensões indicadas pela teoria conduz, como veremos, a resultados "devastadores" em termos de resposta nas baixas frequências e eficiência, com um mínimo de distorção. Para nossa sorte, o Sr. Mauricio Deconto foi perfeccionista o suficiente (ou maluco bastante...) para, após seis meses de projeto e oito de trabalho construtivo inaugural em primeiro de Janeiro de 1990 a sua obra, digna do Guinness Book do áudio. E isso sem falar nas longas discussões entre Maurício e o Falcão, debruçados sobre uma pilha de artigos da revista italiana Suono, sobre projetos de Difussori a Tromba, ou seja, cornetas, publicados nos números 155/163/164/ 166/169/170, entre abril de 86 e julho de 87; e o Reactance Annuling, de J. Plach ,e B. Williams, que saiu na Radio Electronic Engineering de fevereiro de 1955, com análogos elétricos, circuitos equivalentes e inúmeros gráficos, em um trabalho que causa admiração pela qualidade e atualidade do mesmo (coma aliás muitos outros daquela época).

A CORNETA

A corneta de concreto, construída pelo Sr. Mauricio no terreno de sua casa com 10m² de área de boca (veja quadro de características técnicas), constitui a maior parte da parede frontal da sala de audição (a sala tem 150m²), e avança pelo pátio.

Desde que a corneta entrou em operação, foram realizadas experiências objetivas e subjetivas, entre as audições de puro prazer estético. Com isso estamos dizendo que o trabalho ainda não terminou e, provavelmente, não acabará nunca. Maurício é um eterno experimentador e os dois falantes WPU 1202, da linha Easy Replacement correm o risco de virem a ser substituídos por um único, de 18 polegadas, modelo WPUI802 (ou WPU1805), todos da Selenium, pelo puro prazer da experimentação.

Para ajustar acusticamente os dois falantes WPU 1202 a corneta, o volume da câmara traseira teve que ser reduzido de 400 para 170 litros. o que foi feito preenchendo com areia o volume restante.

Cada falante tem seu cabo individual para o amplificador. do tipo usado em máquina de solda elétrica, com um centímetro de diâmetro! Em todos os detalhes vemos o esmero e o perfeccionismo que o Sr. Mauricio devota ao áudio. Técnico em eletrônica por profissão, mantém uma oficina de consertos de aparelhos de TV e vídeo, dentre outros. O tempo que sobra é dedicado, de corpo e alma, ao áudio de qualidade, na busca do som perfeito. É o que podemos chamar de um audiófilo em tempo quase integral.

Sua preocupação com a qualidade pode ser vista nos menores detalhes, como na base para o CD player Philips, uma mesa de inércia composta por uma pedra de granito polido medindo 41x87x10 cm e pesando 130 Kg, montada em uma estrutura de ferro com molas e pivôs de . fixação, para não captar vibrações.

Seguindo a filosofia minimalista o Sr. Maurício acredita que quanto menos equipamento melhor, pois menor será a degradação do sinal. Por essa razão não utiliza pré-amplificadores, equalizadores ou quaisquer outros equipamentos que não sejam indispensáveis.

MEDINDO A RESPOSTA

Utilizando urn CD de teste com ruído rosa, ajustamos o nível na saída do amplificador de modo que os falantes em paralelo recebessem 0,23V (não utilizamos IV pois devido a eficiência da corneta, o nível de pressão acústica seria desconfortável), o que produziu 89dB no microfone do RTA da Audio Control, Localizado a um metro da boca da corneta. Como os dois falantes estão em paralelo, a impedância resultante é igual a 4 ohms. A tensão aplicada foi de 0,23V, resultando numa potência elétrica fornecida a corneta igual a 0,232/2 = 0,0132 Watts. Se tivéssemos aplicado 1W, teríamos um acréscimo de 10Log(1/0.0132) = 10Log(75,76) = 10)(1,879 = 18,78 dB.

A sensibilidade a 1W/m será igual a 89 + 18,78 = 107,8 0 108dB SPL. que expressa em porcentagem equivaleria a 80%, o que 6 uma eficiência elevadíssima para baixas frequências. Desse modo, com apenas 79,4 mil Watts na saída. conseguiremos um nível de pressão sonora de 100dB. Urn volume muito alto para uma sala de dimensões médias. Supondo urn amplificador capaz de fornecer 800 Watts em 4 ohms, sem clipar, teremos urn headroom de 10Log(800/0.0794) = 10Log(1076) = 10x4 = 40 dB. o que urn valor gigantesco comparado corn os 3dB ou 6dB comumente encontrados nes rr graves. Aí está a razão da construção da corneta: a certeza de que mesmo os tiros de canhão da abertura 1812 serão reproduzidos linearmente, sem saturar o amplificador.

Na curva de resposta do sistema, ajustada pelo gosto auditivo, os graves aparecem com um reforço significativo em relação aos médios. Isto se deve menor sensibilidade do ouvido em baixas frequências (principalmente. corn baixo volume), em relação aos media Na curva ajustada para resposta plana, apenas os controles de nível do crossover foram utilizados pois o sistema d do tipo minimalista, ou seja, quanta menos equipamentos para degradar o sinal, melhor. Por este motivo, não existe equalizador e nem mesmo pré amplificador no sistema.

O vale que aparece na faixa de 200 a 1000 Hz foi devido a urn defeito no amplificador de médio-graves, que obrigou o sistema a operar em 3 vias, corn a corneta de graves reproduzindo at 800 Hz, ao invés de parar nos 80 ou 100 Hz, como seria o normal.

Trabalhava no computador, terminando uma documentação técnica para a Attack, quando recebi uma ligação do Homero: "Rosinha (Não tem jeito. Ele insiste em me chamar assim!), sexta-feira para Curitiba com o Falcão levantar os parâmetros de uma corneta, feita em concreto por um audiófilo muito dedicado. Quer ir comigo para me ajudar nos testes e ver com os próprios olhos aquela maravilha?"

Mesmo em cima da hora, pois era uma quinta-feira, acabei aceitando o convite e fui. Durante a viagem, tentando visualizar uma "corneta de concreto", pensei nos mais variados tipos e formas e acabei concluindo que deveria ser apenas uma corneta, como essas comuns com as quais nos deparamos por aí, só que em concreto. Esqueci o assunto e deslumbrei-me com a paisagem.

Sexta a noite. jantando em uma típica cantina italiana, em Santa Felicidade, fiquei sabendo mais a respeito de estarmos através do Falcão, que já morou em Curitiba, o Homero tomou conhecimento da existencia de urn "tal" senhor Maurício. audiófilo e técnico em eletrônica, que havia construído uma corneta de concreto em sua casa (depois vi que foi o contrário: construiu a casa na corneta, isto sim), para poder reproduzir, com pureza, graves a partir dos 20 Hz.

No dia seguinte, depois de algumas idas e vindas, pois nosso guia estava mais para coruja do que para Falcão... Entrei na propriedade do Sr. Mauricio procurando algo parecido com o que havia imaginado. Subitamente parei e olhei com muita calma para certificar-se de que, realmente, estava diante "daquilo"! Uma verdadeira loucura!

Nada do que virá, ou imaginara até então, se parecia com o que estava diante dos meus olhos. Levei alguns minutos para me refazer, após o que fiquei ansioso para ouvir o que dali seria reproduzido. Entrando na sala de audição (onde uma das paredes era, praticamente, a boca da corneta, vi que o Sr. Maurício, em meio a explicações, colocava um CD para ouvirmos. Que definição de GRAVES! Puros como eu jamais havia ouvido antes!

Passamos o dia fazendo o levantamento dos parâmetros da corneta (impedância, sensibilidade, resposta), botando e tirando amplificadores, com apenas um (não tão) breve intervalo para almoço, quando fomos comer uma "pizza de panela". Ao entardecer, cansados e bastante suados, fomos reanimados pelos canhões da 1812, que tocaram como no campo de batalha.

Não posso deixar de referir-me a alta definição e a transparência das médias e altas frequências irradiadas pelo sistema montado pelo Sr. Mauricio. O som, como um todo, era simplesmente maravilhoso! As modificações feitas por ele nos equipamentos, produziram excelentes resultados (aumento da Capacitância da fonte, substituição da cabeação interna e externa e a utilização de conectores banhados a ouro).

De volta, após aquele inesquecível fim de semana, relatei o que vi e ouvi para o pessoal da Attack e parece que fui feliz na descrição pois o Aires Nicolino prometeu doar amplificador especialmente "preparado" para a corneta do Sr. Mauricio. Agendamos alguns testes a mais, que poderiam ser feitos em outra oportunidade. Na verdade, é puro pretexto para lá estarmos de novo...

Durante as medições, as condições eram: 28 graus Celsius de temperatura, 51% de umidade relativa do ar e 916 mb de pressão atmosférica.

Os médios eram reproduzidos por falantes aproveitados de urn par de caixas Master 200, da Gradiente, sendo os tweeters de fabricação NC, tipo ribbon. O amplificador da corneta era um A1, velho de guerra.

PROTÓTIPO DA ATTACK

O engenheiro Rosalfonso Bortoni aproveitou para testar o protótipo do modelo EX3800 Turbo, por ele desenvolvido para fornecer 850 Watts RMS em 4 ohms, corn urn canal operado, e resposta a -3 dB de 10 Hz a 40 kHz. A 1812 foi agora reproduzida a plena potência e os tiros devem ter acertado em algum lugar do prédio, tal o impacto (pedaços de argamassa se desprende da parede). Para aproveitar a eficiência da corneta, foi feito um teste de ruído no amplificador: com as entradas abertas, os controles de volume no maxima, e a saída ligada na corneta, comprovou-se, para felicidade do projetista, que não havia ruído audível... A Attack vai presentear o Sr. Mauricio corn urn amplificador de graves especialmente desenvolvido para atender as exigências de um audiófilo.

José Carlos é diretor da Makra Comércio Ltda. HOMERO Sette Silva consultor da Selenium e Attack. Desenhos de Eduardo Weber, da Selenium.

FONTE: REVISTA BACKSTAGE, ANO 03, Nº26 - 1997